quinta-feira, 13 de junho de 2013

Carta aberta a um professor Português

Caro professor,

Antes de mais, permita-me que lhe dirija o meu mais sentido agradecimento. Escrevo-lhe esta carta porque fui afortunado o suficiente para me cruzar com colegas seus. Professores determinados que me ensinaram a escrever, a sentir e, mais do que qualquer outra coisa, a pensar. Sei que a maior parte dos docentes do nosso País é feita desta fibra: gente que não quebra, que nunca desistiu de um aluno, que abdica voluntária e diariamente do seu tempo e do seu dinheiro para melhor servir os jovens Portugueses, sem por isso esperar qualquer contrapartida.

Para além de aluno, sou filho de professores. Conheço a frustração de quem sente fugirem-lhe por entre os dedos os meios de que precisa para educar as gerações futuras. Mas aprendi a adivinhar nos olhos de cada docente a vontade inquebrável de quem não permite que a dureza dos cortes interfira com a qualidade do seu trabalho. Quando, há dois anos, a gestão irresponsável dos sucessivos governos obrigou Portugal a sujeitar-se à humilhação de ter de pedir ajuda externa para pagar salários aos funcionários públicos e pensões aos reformados, ninguém ficou satisfeito com as contrapartidas exigidas, mas a maior parte das pessoas compreendeu que algo de muito errado se tinha passado. Quando uma Educação que se diz pública e gratuita acarreta – como acarretava, em 2010, a Portuguesa – uma despesa superior a 809 euros per capita, dita o senso comum que existe margem e, mais do que isso, existe a necessidade de cortar, não para pôr em causa o serviço público de Educação, mas para o tornar justo e sustentável.

Caro professor, não duvide que dizer-se professor Português hoje é um motivo de orgulho. Os docentes entenderam com um espírito patriótico inigualável que era necessário fazer sacrifícios e que os sacrifícios teriam de passar, em parte, pela sua actividade profissional. E, a cada medida anunciada pelo Governo, a tendência tornava-se mais evidente: os sindicatos respondiam irados, os professores reagiam como heróis. Porém, por muito que se depreenda a emergência da situação nacional, é difícil aceitar todas as medidas que estão a ser postas em prática. É devastador ver a nossa Nação multi-secular agrilhoada à necessidade da ajuda externa. E porventura, tudo isto será ainda mais penoso para uma classe profissional que, incumbida de preparar o futuro do País, se sente incapaz de o imaginar mais animador do que o presente.

Compreendo, caro professor, a revolta que os docentes alimentam. Mais do que isso, compreendo mesmo a incapacidade que sentem de fazer ouvir as vossas vozes. Mas a impotência que tantos docentes sentem é, há que dizê-lo, em grande medida, responsabilidade do movimento sindical. Os sindicatos Portugueses não compreendem, ao contrário dos professores, a importância de uma greve: os docentes sabem que a greve é um instrumento de último recurso, a expressão máxima do protesto de um trabalhador, o momento em que o obreiro procura forçar a entidade empregadora a optar entre o vigor do seu trabalho e as condições que se procura reverter. Os professores, que são pragmáticos e responsáveis, sabem que a greve é uma arma que deve ser usada em situações muito específicas e com objectivos muito claros. Os sindicalistas, que são contestatários de carreira, interessados apenas em legitimar nas ruas uma agenda política chumbada nas urnas, preferiram usar e abusar deste recurso, fazer dos seus associados joguetes num tabuleiro político de terceira categoria e banalizar a greve, despindo-a do seu impacto original ao mesmo tempo que explicavam aos seus associados com assinalável cinismo que se “esgotaram todas as formas de luta”.

Mas, caro professor, por muito incapaz que se sinta de fazer chegar a sua voz ao Ministério, fazer greve aos Exames Nacionais não é a opção mais sensata. Alinhar com uma greve aos exames neste momento e nestas condições não demonstra à opinião pública que os docentes preferem que a mobilidade especial seja aplicada de outra forma ou que é impossível ensinar uma turma com 30 alunos. Porque esta é uma greve cega, uma greve autista, uma greve convocada sem objectivos específicos que não a demissão do Governo e a tão famigerada “mudança de política”. Esta greve esgota-se na verborreia ideológica e olvida as reivindicações práticas dos docentes. Esta greve é convocada por sindicalistas que nunca se sentaram à mesa com o Executivo para dar voz às suas preocupações ou às necessidades dos seus alunos, que lhe pedem com despudorada insistência que abdique de um dia de ordenado para poderem fazer manchetes e clamar vitória para as suas pretensões ao mesmo tempo que o deixam a si e aos seus alunos exactamente na mesma.

Alinhar com uma greve aos exames neste momento e nestas condições, caro professor, é mostrar a sindicalistas dogmáticos mais preocupados com a veiculação de uma doutrina partidária do que com os seus direitos ou as necessidades dos seus alunos que conseguem manipular os professores. E essa é a ambição mais ousada de quem aspira a dominar uma sociedade. Por isso, caro professor, dirijo-lhe um repto humilde, mas esperançoso. Não deixe que lhe roubem a palavra. Não deixe que lhe mintam. Não deixe que lhe digam que não há outras formas de reivindicação. Faça chegar a sua voz ao Ministério, peticione a Assembleia da República, contacte os seus representantes. Mostre que os professores Portugueses, ao contrário dos sindicatos, têm propostas concretas, pragmáticas e razoáveis. Mostre que não precisa de intermediários. Não boicote exames, boicote o Sr. Nogueira. Boicote os sindicalistas que não se preocupam consigo, nem connosco. Não nos desiluda. Mostre que é livre. Mostre que pensa por si. Mostre que é um professor Português.

António Pedro Barreiro, 17 anos

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Há um ano, o Trocadéro enchia-se para celebrar o Dia do Trabalhador

"Je le dis aux syndicats: Laissez les partis! Votre rôle n’est pas de défendre une idéologie. Votre rôle est de défendre les salariés, de défendre le travail. Dans la République, c’est le peuple qui décide. Dans la République, quand il y a blocage, on donne la parole au peuple. C’est cela la République! Alors, je le dis aux syndicats: posez le drapeau rouge et servez la France! Remplissez la mission qui est la vôtre dans une démocratie!"

- Nicolas Sarkozy, 1 de Maio de 2012


quarta-feira, 27 de março de 2013

Os Caídos de Netanya


Há precisamente 11 anos, um bombista suicida do Hamas fazia-se explodir num hotel em Netanya, Israel, onde mais de 200 pessoas se encontravam a celebrar a Páscoa Judaica. Morreram 28 civis, a maior parte dos quais idosos. Algumas das vítimas tinham sobrevivido aos horrores dos campos de concentração apenas para perecerem no coração da sua Pátria ancestral, perante os horrores do extremismo islâmico. O mais jovem dos mortos tinha 20 anos e uma vida pela frente.
Os escombros de Netanya
Não se prevê que os caídos de Netanya façam hoje grandes manchetes nos jornais ou dêem direito a longas reportagens na televisão. Tal como não se prevê que algum meio de comunicação social se refira às celebrações de júbilo que, todos os anos, esta data despoleta em Gaza.
Não, de Gaza só se falará quando os rockets que o Hamas lança a partir de escolas primárias, mesquitas e hospitais forçarem os Israelitas a atacar uma destas infra-estruturas. De Gaza só se falará quando isso permitir culpar Israel. Enquanto isso não se proporciona, enchem-se jornais com artigos sobre a depilação púbica ou a pavimentação das ruas de Lisboa. Porque a frivolidade é mais fácil. É menos polémica. Porque o verdadeiro jornalismo dá trabalho. E porque tratar o terrorismo pelo seu verdadeiro nome é "pouco tolerante".

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Eleições Israelitas - algumas notas

Algumas considerações sobre os resultados das primeiras sondagens à boca da urna em Israel:
  1. O grande vencedor da noite é Benjamin Netanyahu. Para já, porque todas as sondagens antecipam, ainda que com uma folga variável, uma maioria absoluta à Direita. Depois, porque, se é verdade que a coligação Likud-Yisrael Beiteinu alcançou menos lugares no Knesset do que os dois partidos tinham logrado em 2009 quando concorriam separados, também o é que, em 2009, Netanyahu partia para o Governo liderando apenas um desses partidos - cuja representação parlamentar não lhe permitia sequer controlar metade da bancada da maioria - e que, hoje, o faz à frente de um bloco que congrega ambos. Os 31 deputados do bloco Likud-Yisrael Beiteinu são, pois, mais do que a marca de uma derrota pessoal, a garantia de que Netanyahu terá ainda maior margem de manobra durante o seu próximo mandato.

  2. Depois da estrondosa derrota eleitoral que sofreu em 2009, o Avoda prometia ocupar o espaço político do decadente Kadima e sagrar-se como líder da oposição a Netanyahu. Numa tirada particularmente ousada e, a meu ver, particularmente arrogante, Shelly Yachimovich chegou mesmo a sugerir que o seu partido poderia vencer as eleições e liderar o próximo Governo. O terceiro lugar e os 17 deputados que as sondagens são unânimes em conceder aos trabalhistas constituem, portanto, uma acutilante evidência da macrocefalia dos devaneios de Yachimovich e da incapacidade de o seu partido conquistar a simpatia popular e aspirar a qualquer controlo sobre a oposição. Yachimovich criou expectativas demasiado elevadas que tornam o crescimento do seu partido num resultado incipiente e que fazem do que poderia ser encarado como uma subida per se uma estrondosa derrota.

  3. O crescimento exponencial do Bayit Yehudi, um partido especialmente popular entre os jovens, demonstra que a agenda sionista continua viva e que o desejo por fronteiras defensáveis continua a apaixonar os Israelitas. Naftali Bennett centrou a sua campanha na defesa da anexação da Zona C da Cisjordânia (Judeia e Samaria), nos termos do Tratado de Oslo - que pede que a ocupação daquela zona seja feita de forma equilibrada por Palestinianos e Israelitas simultaneamente - e respondendo à dinâmica demográfica da área, onde habitam oito vezes mais Judeus do que Palestinianos.

  4. A direita religiosa do Shas e do Yahadut Torah Meukhedet mantém sensivelmente o número de deputados que tinha, ainda que a população Ortodoxa tenha aumentado desde 2009. Por seu turno, o Yesh Atid, que fez do secularismo uma das suas principais bandeiras, atinge um impressionante segundo lugar e consegue ocupar o espaço político do Kadima. Este resultado é o reflexo de uma tendência crescentemente secular que grassa na sociedade Israelita, mas também a expressão de um descontentamento cada vez maior com algumas benesses que o Estado de Israel devota à população Ortodoxa, benesses essas que, de resto, o Yisrael Beiteinu gostaria de ver, pelo menos parcialmente, repelidas. Yar Lapid, líder do Yesh Atid, mostrou-se, durante a campanha, disponível para ingressar na coligação governamental, desde que esta se comprometa a repelir a isenção de serviço militar obrigatório a que os ultra-Ortodoxos têm direito. Uma vez que esta medida nunca recolherá o apoio do Shas ou do Yahadut Torah Meukhedet, a sua adopção inviabilizaria à partida a participação destes dois partidos no Governo. Será, portanto, interessante analisar os parceiros de coligação com que Netanyahu se irá comprometer. Um acordo com a direita religiosa incutiria contornos mais radicais à forma como o futuro Governo lidará com os Palestinianos e o Irão. Contudo, um acordo com Lapid permitir-lhe-ia avançar com uma reforma adiada há tempo demais, ao mesmo tempo que garantiria que o Governo é sustentado por uma maioria mais ampla, mais estável e mais abrangente.
Benjamin Netanyahu foi reeleito Primeiro-Ministro de Israel

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

67º lugar

A Heritage Foundation põe Portugal num distante 67º lugar no seu reputado Índice de Liberdade Económica. É esta a marca da intervenção imprestável de um Estado cujas proporções orwellianas explicam a espiral de despesismo e endividamento que agrilhoa as gerações futuras. Esta é a marca de um Estado que se desdobra em tentativas de coação em vez de deixar florescer a livre interacção entre indivíduos. Esta é a marca de um Estado que regula, mas não se sabe regular, que controla, mas não se sabe controlar, que põe em causa o futuro dos cidadãos, mas nunca põe em causa a vasta panóplia de inutilidades em que se especializou. Mas esta é, sobretudo, a marca de cidadãos que o não são, a marca de um povo que vende o seu voto em troca da perpetuação da subsidio-dependência ou da construção de mais elefantes brancos pelo Poder Local, a marca de uma sociedade devotada à crítica fácil, mas avessa às reformas difíceis.
67º lugar. Aqui estamos e aqui continuaremos. Até que tenhamos coragem para ousar a Liberdade.


sábado, 25 de agosto de 2012

Guerra da Sucessão

Nos últimos meses, à medida que cada acto eleitoral trazia uma derrota cada vez mais espalhafatosa para o Bloco de Esquerda, muitos especulavam acerca da saída de Louçã. Após treze anos à frente do partido, parecia consensual que a liderança de Louçã era uma das principais causas dos tímidos resultados do Bloco. Gil Garcia disse-o, Daniel Oliveira reiterou-o, Miguel Portas confirmou-o. Esta realidade parecia óbvia para todos, excepto para o próprio Louçã que, apesar de admitir invariavelmente as estrondosas derrotas do partido, nunca retirou delas as ilações necessárias. Foi assim quando o Bloco perdeu as vereações em Lisboa e no Porto, foi assim quando o Bloco foi extirpado de metade do seu grupo parlamentar e foi até assim quando o Bloco foi corrido da Assembleia Legislativa da Madeira: Louçã via o castelo a desmoronar-se, mas parecia continuar a achar-se o único capaz de o reconstruir ou, pelo menos, demasiado orgulhoso para admitir que a derrocada era culpa sua. E, deste modo, o Bloco parecia esgotar-se em Louçã: no autismo de Louçã, na soberba de Louçã, no calculismo político de Louçã.
Foi então que, no passado dia 17 de Agosto, o coordenador do BE disse o que muitos ansiavam por ouvir, numa carta endereçada ao cada vez mais diminuto "povo do Bloco". Depois de treze anos à frente do partido, cinco candidaturas a Primeiro-Ministro e uma candidatura a Presidente da República, Louçã vai mesmo abandonar o barco. A tão antecipada saída não vai, é claro, coincidir com um período pós-eleitoral, para poupar o ainda líder da extrema-esquerda à humilhação de se assumir responsável por mais uma derrota. Louçã sabe que tem de sair, mas, podendo fazê-lo de mansinho, prefere.
Mas Louçã não quer só abandonar o barco de mansinho. Quer poder também escolher o timoneiro. Ou melhor, os timoneiros. Afinal, Louçã sempre soube gerir os destinos do partido melhor do que os militantes...
Louçã com João Semedo, um dos líderes que escolheu para o Bloco.

Louçã sabe que o seu tempo chegou ao fim e sabe que o Bloco precisa de uma renovação, sob pena de se esgotar. E foi por isso que propôs que a direcção do partido fosse assumida por João Semedo e Catarina Martins que, com respectivamente 61 e 39 anos, encaixam no ideal de sangue novo de que o Bloco tão desesperadamente necessita.
Louçã compreende isto melhor do que ninguém, assim como compreende que este novo modelo de direcção responde aos desafios do século XXI. Curioso timing o deste líder que coordena o partido desde 1999 e só na iminência da sua queda se apercebe que passou doze anos agarrado a um modelo de direcção que é apanágio do século passado.
Agora, falta saber se as hierarquias do BE vão cumprir a última vontade de Louçã ou se vão deixar os militantes do Bloco escolher a sua liderança livremente, como falta saber se o fantasma de Louçã vai continuar a assombrar o Bloco, mesmo depois da saída do coordenador.