quarta-feira, 27 de março de 2013

Os Caídos de Netanya


Há precisamente 11 anos, um bombista suicida do Hamas fazia-se explodir num hotel em Netanya, Israel, onde mais de 200 pessoas se encontravam a celebrar a Páscoa Judaica. Morreram 28 civis, a maior parte dos quais idosos. Algumas das vítimas tinham sobrevivido aos horrores dos campos de concentração apenas para perecerem no coração da sua Pátria ancestral, perante os horrores do extremismo islâmico. O mais jovem dos mortos tinha 20 anos e uma vida pela frente.
Os escombros de Netanya
Não se prevê que os caídos de Netanya façam hoje grandes manchetes nos jornais ou dêem direito a longas reportagens na televisão. Tal como não se prevê que algum meio de comunicação social se refira às celebrações de júbilo que, todos os anos, esta data despoleta em Gaza.
Não, de Gaza só se falará quando os rockets que o Hamas lança a partir de escolas primárias, mesquitas e hospitais forçarem os Israelitas a atacar uma destas infra-estruturas. De Gaza só se falará quando isso permitir culpar Israel. Enquanto isso não se proporciona, enchem-se jornais com artigos sobre a depilação púbica ou a pavimentação das ruas de Lisboa. Porque a frivolidade é mais fácil. É menos polémica. Porque o verdadeiro jornalismo dá trabalho. E porque tratar o terrorismo pelo seu verdadeiro nome é "pouco tolerante".

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Eleições Israelitas - algumas notas

Algumas considerações sobre os resultados das primeiras sondagens à boca da urna em Israel:
  1. O grande vencedor da noite é Benjamin Netanyahu. Para já, porque todas as sondagens antecipam, ainda que com uma folga variável, uma maioria absoluta à Direita. Depois, porque, se é verdade que a coligação Likud-Yisrael Beiteinu alcançou menos lugares no Knesset do que os dois partidos tinham logrado em 2009 quando concorriam separados, também o é que, em 2009, Netanyahu partia para o Governo liderando apenas um desses partidos - cuja representação parlamentar não lhe permitia sequer controlar metade da bancada da maioria - e que, hoje, o faz à frente de um bloco que congrega ambos. Os 31 deputados do bloco Likud-Yisrael Beiteinu são, pois, mais do que a marca de uma derrota pessoal, a garantia de que Netanyahu terá ainda maior margem de manobra durante o seu próximo mandato.

  2. Depois da estrondosa derrota eleitoral que sofreu em 2009, o Avoda prometia ocupar o espaço político do decadente Kadima e sagrar-se como líder da oposição a Netanyahu. Numa tirada particularmente ousada e, a meu ver, particularmente arrogante, Shelly Yachimovich chegou mesmo a sugerir que o seu partido poderia vencer as eleições e liderar o próximo Governo. O terceiro lugar e os 17 deputados que as sondagens são unânimes em conceder aos trabalhistas constituem, portanto, uma acutilante evidência da macrocefalia dos devaneios de Yachimovich e da incapacidade de o seu partido conquistar a simpatia popular e aspirar a qualquer controlo sobre a oposição. Yachimovich criou expectativas demasiado elevadas que tornam o crescimento do seu partido num resultado incipiente e que fazem do que poderia ser encarado como uma subida per se uma estrondosa derrota.

  3. O crescimento exponencial do Bayit Yehudi, um partido especialmente popular entre os jovens, demonstra que a agenda sionista continua viva e que o desejo por fronteiras defensáveis continua a apaixonar os Israelitas. Naftali Bennett centrou a sua campanha na defesa da anexação da Zona C da Cisjordânia (Judeia e Samaria), nos termos do Tratado de Oslo - que pede que a ocupação daquela zona seja feita de forma equilibrada por Palestinianos e Israelitas simultaneamente - e respondendo à dinâmica demográfica da área, onde habitam oito vezes mais Judeus do que Palestinianos.

  4. A direita religiosa do Shas e do Yahadut Torah Meukhedet mantém sensivelmente o número de deputados que tinha, ainda que a população Ortodoxa tenha aumentado desde 2009. Por seu turno, o Yesh Atid, que fez do secularismo uma das suas principais bandeiras, atinge um impressionante segundo lugar e consegue ocupar o espaço político do Kadima. Este resultado é o reflexo de uma tendência crescentemente secular que grassa na sociedade Israelita, mas também a expressão de um descontentamento cada vez maior com algumas benesses que o Estado de Israel devota à população Ortodoxa, benesses essas que, de resto, o Yisrael Beiteinu gostaria de ver, pelo menos parcialmente, repelidas. Yar Lapid, líder do Yesh Atid, mostrou-se, durante a campanha, disponível para ingressar na coligação governamental, desde que esta se comprometa a repelir a isenção de serviço militar obrigatório a que os ultra-Ortodoxos têm direito. Uma vez que esta medida nunca recolherá o apoio do Shas ou do Yahadut Torah Meukhedet, a sua adopção inviabilizaria à partida a participação destes dois partidos no Governo. Será, portanto, interessante analisar os parceiros de coligação com que Netanyahu se irá comprometer. Um acordo com a direita religiosa incutiria contornos mais radicais à forma como o futuro Governo lidará com os Palestinianos e o Irão. Contudo, um acordo com Lapid permitir-lhe-ia avançar com uma reforma adiada há tempo demais, ao mesmo tempo que garantiria que o Governo é sustentado por uma maioria mais ampla, mais estável e mais abrangente.
Benjamin Netanyahu foi reeleito Primeiro-Ministro de Israel

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

67º lugar

A Heritage Foundation põe Portugal num distante 67º lugar no seu reputado Índice de Liberdade Económica. É esta a marca da intervenção imprestável de um Estado cujas proporções orwellianas explicam a espiral de despesismo e endividamento que agrilhoa as gerações futuras. Esta é a marca de um Estado que se desdobra em tentativas de coação em vez de deixar florescer a livre interacção entre indivíduos. Esta é a marca de um Estado que regula, mas não se sabe regular, que controla, mas não se sabe controlar, que põe em causa o futuro dos cidadãos, mas nunca põe em causa a vasta panóplia de inutilidades em que se especializou. Mas esta é, sobretudo, a marca de cidadãos que o não são, a marca de um povo que vende o seu voto em troca da perpetuação da subsidio-dependência ou da construção de mais elefantes brancos pelo Poder Local, a marca de uma sociedade devotada à crítica fácil, mas avessa às reformas difíceis.
67º lugar. Aqui estamos e aqui continuaremos. Até que tenhamos coragem para ousar a Liberdade.


sábado, 25 de agosto de 2012

Guerra da Sucessão

Nos últimos meses, à medida que cada acto eleitoral trazia uma derrota cada vez mais espalhafatosa para o Bloco de Esquerda, muitos especulavam acerca da saída de Louçã. Após treze anos à frente do partido, parecia consensual que a liderança de Louçã era uma das principais causas dos tímidos resultados do Bloco. Gil Garcia disse-o, Daniel Oliveira reiterou-o, Miguel Portas confirmou-o. Esta realidade parecia óbvia para todos, excepto para o próprio Louçã que, apesar de admitir invariavelmente as estrondosas derrotas do partido, nunca retirou delas as ilações necessárias. Foi assim quando o Bloco perdeu as vereações em Lisboa e no Porto, foi assim quando o Bloco foi extirpado de metade do seu grupo parlamentar e foi até assim quando o Bloco foi corrido da Assembleia Legislativa da Madeira: Louçã via o castelo a desmoronar-se, mas parecia continuar a achar-se o único capaz de o reconstruir ou, pelo menos, demasiado orgulhoso para admitir que a derrocada era culpa sua. E, deste modo, o Bloco parecia esgotar-se em Louçã: no autismo de Louçã, na soberba de Louçã, no calculismo político de Louçã.
Foi então que, no passado dia 17 de Agosto, o coordenador do BE disse o que muitos ansiavam por ouvir, numa carta endereçada ao cada vez mais diminuto "povo do Bloco". Depois de treze anos à frente do partido, cinco candidaturas a Primeiro-Ministro e uma candidatura a Presidente da República, Louçã vai mesmo abandonar o barco. A tão antecipada saída não vai, é claro, coincidir com um período pós-eleitoral, para poupar o ainda líder da extrema-esquerda à humilhação de se assumir responsável por mais uma derrota. Louçã sabe que tem de sair, mas, podendo fazê-lo de mansinho, prefere.
Mas Louçã não quer só abandonar o barco de mansinho. Quer poder também escolher o timoneiro. Ou melhor, os timoneiros. Afinal, Louçã sempre soube gerir os destinos do partido melhor do que os militantes...
Louçã com João Semedo, um dos líderes que escolheu para o Bloco.

Louçã sabe que o seu tempo chegou ao fim e sabe que o Bloco precisa de uma renovação, sob pena de se esgotar. E foi por isso que propôs que a direcção do partido fosse assumida por João Semedo e Catarina Martins que, com respectivamente 61 e 39 anos, encaixam no ideal de sangue novo de que o Bloco tão desesperadamente necessita.
Louçã compreende isto melhor do que ninguém, assim como compreende que este novo modelo de direcção responde aos desafios do século XXI. Curioso timing o deste líder que coordena o partido desde 1999 e só na iminência da sua queda se apercebe que passou doze anos agarrado a um modelo de direcção que é apanágio do século passado.
Agora, falta saber se as hierarquias do BE vão cumprir a última vontade de Louçã ou se vão deixar os militantes do Bloco escolher a sua liderança livremente, como falta saber se o fantasma de Louçã vai continuar a assombrar o Bloco, mesmo depois da saída do coordenador.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Do Corte na Despesa

A 21 de Agosto do ano passado, tomava posse o actual Governo Português. Depositário de uma nefasta herança de endividamento irresponsável, incompetência na gestão do dinheiro dos contribuintes e crescimento económico negativo e limitado pelo memorando que os socialistas negociaram, aprovaram e propagandearam em nome de Portugal, o recém-empossado Executivo assumiu-se como reforminsta, enérgico e corajoso no diagnóstico e resolução dos problemas de despesismo e endividamento excessivos que afectavam o Estado português. Bastaram algumas semanas para que se verificasse que a tarefa a que o Executivo se propunha iria ser ainda mais difícil de cumprir do que parecia, à medida que se percebia a verdadeira dimensão do desbarato em que o PS deixara as contas públicas, que se revelava a extensão dos buracos da Madeira e que era exigido ao Governo que pagasse as facturas das empresas públicas.

Contudo, e não obstante o clima adverso que enfrentava, o Executivo deitou mãos à obra e começou a cortar na despesa: o número de Ministérios foi reduzido, os Governos Civis foram extintos, o Ministério dos Negócios Estrangeiros eliminou 21% dos cargos dirigentes, o MAMAOT reduziu-os em 25% e o Ministério da Justiça em 33%, o Ministério da Educação substituiu as Direcções Regionais por estruturas simplificadas e o Ministério da Solidariedade Social não renomeou os directores-adjuntos distritais. Para além destas decisões, a orgânica do Governo foi simplificada, com o Ministério da Justiça a extinguir 21% das suas estruturas orgânicas e o MAMAOT a eliminar 25 unidades de gestão.
Os cépticos ignoraram estas mudanças. Na sua visão tacanha, estas não passavam de uma operação cosmética para disfarçar um lúgubre lodaçal de compadrio e corrupção em que, por exemplo, os gestores públicos continuavam a fazer fortunas. Porém, o Executivo não ficou por aqui. Decidiu responsabilizar criminalmente os dirigentes que autorizassem notas de encomenda não cabimentadas e alterar o estatuto dos gestores públicos eliminando os prémios de gestão e os cartões de crédito das empresas, introduzindo a possibilidade de despedimento e limitando os ordenados ao montante ganho pelo Primeiro-Ministro e o número de administradores de cada empresa a três, seleccionados por uma entidade independente.
Mais uma vez, os cépticos fizeram vista grossa, sorriram cinicamente e continuaram a afirmar que o Governo  apenas arranhara a superfície dos problemas. Chegar ao cerne destes não era, segundo os cépticos, um objectivo do Executivo. Daí que ainda proliferassem institutos públicos, empresas públicas e empresas municipais que ninguém estava interessado em extinguir. Mas o Governo provou, uma vez mais, que assim não era: proibiu a criação de novas empresas municipais, legislou para que as Autarquias tivessem de as reduzir em 50%, eliminou a Parque EXPO, fundiu o IPJ com o Instituto do Desporto e, posteriormente, de uma assentada só, extinguiu 146 organismos públicos e 290 cargos de direção superior. Acabou, também, por fim, com o encargo que o BPN representava para os contribuintes, privatizando-o e negociou com mestria a privatização da parte pública da EDP, algo que não fazia sentido manter após a abolição das golden shares. Reduziu ainda em 15% as transferências para a RTP.
Todavia, havia quem continuasse pouco convencido. Se os cépticos estavam mais à direita no espectro político, tendiam a acusar o Governo de complacência para com a proliferação de fundações. Se estivessem mais à Esquerda, o cerne dos problemas estava nas parcerias público-privadas. Uma vez mais, o Governo deu resposta a estas situações. Em Janeiro deste ano, lançou o censo às fundações, uma auditoria a estas organizações que, publicado hoje, expõe pela primeira vez na História da Democracia os sorvedouros que estas instituições têm sido. Hoje mesmo, após a publicação dos resultados, o Executivo anunciou que iria cortar o financiamento a estas organizações em 50% e, em muitos casos, em 100%. Também hoje, foi anunciada a renegociação dos acordos de concessão rodoviária, as tais PPP com que a Extrema-Esquerda tanto enchia a boca, que permitirão ao Estado poupar mais de mil milhões de euros.
A verdade é que, depois do descalabro socialista, este Governo e esta maioria têm estado a atacar de forma metódica, reformista e corajosa a despesa pública, o sobre-endividamento do Estado e os interesses instalados. E não é o cepticismo de alguns Velhos do Restelo que vai mudar isso.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Sonhos cor-de-rosa

Aparentemente, assinalou-se ontem o primeiro aniversário da tomada de posse de António José Seguro como líder do PS. Como não podia deixar de ser, a comemoração desta data foi um pretexto para que Seguro brindasse as hostes socialistas com mais uma exposição da sua peculiar concepção de austeridade inteligente. Desta vez, sob a forma de uma carta enviada aos militantes, o líder socialista traçou uma vez mais os contornos do que seria uma governação socialista. Se o PS estivesse no Governo, diz Seguro, a austeridade seria aplicada com tempo e com brandura. Se o PS estivesse no Governo, diz Seguro, Portugal teria governantes capazes de compreender que a austeridade é inimiga do crescimento. Se o PS estivesse no Governo, diz Seguro, seria mesmo possível honrar os compromissos internacionais do nosso País e, simultaneamente, não fazer sacrifícios e não cumprir o memorando.
Para além da óbvia componente humorística, os vaticínios utópicos de Seguro parecem-me perigosamente similares às promessas de Sócrates e que, apesar de baratas, acabaram por custar muito caro ao País: Sócrates deixou Portugal com um crescimento económico negativo de quase 2%, um desemprego de quase 11%, uma dívida que, superior ao PIB, consome toda a riqueza produzida no nosso País e, naturalmente, um memorando que preconiza cortes extremamente violentos de que o PS, fiel à sua tradição de incoerência, agora se distancia com assinalável repugnância.
Estou certo de que os discursos de Seguro não conquistariam mais do que a complacência de um sorriso condescendente se constituíssem um caso isolado entre os socialistas europeus. Porém, afastada do poder em praticamente toda a Europa, a família socialista está sedenta de a ele regressar. E, por isso, tem exibido a mesma demagogia barata, as mesmas promessas vãs e, naturalmente, a mesma memória selectiva que Seguro tem demonstrado no nosso País. 
A verdade é que não foi só Sócrates que se desdobrou em promessas gratuitas e deixou um País mais pobre para a Direita recuperar. Por toda a Europa, os últimos líderes socialistas a assumir o poder legaram heranças pesadas que coube à Direita solucionar e que, naturalmente, os seus sucessores políticos rapidamente esqueceram. Em França, Mitterrand abrandou o crescimento do PIB em 3,9%, aumentou a dívida pública em quase 34% e deixou uma taxa de desemprego com dois dígitos. Coube a Chirac e ao pouco popular Sarkozy fazer as reformas necessárias para recuperar do descalabro de Mitterrand. E, após 15 anos de políticas que qualquer responsável socialista afirmaria conduzirem inevitavelmente à recessão, nem a crise internacional conseguiu fazer o desemprego francês regressar aos dois dígitos de Mitterrand. Na Alemanha, o socialista Gerhard Schröder aumentou o desemprego de 10,5% para 11,7% e deixou a Alemanha a crescer menos de 1% ao ano. Coube, pois, à tão odiada Merkel e às suas políticas, as tais que os socialistas europeus afirmam levar à recessão, reduzir o desemprego para o mínimo histórico de 4,7% e conduzir a economia alemã a um crescimento anual de 3,5%. Também no Reino Unido, a pesada herança de Blair e Brown trouxe um crescimento negativo de 0,5% do PIB, situação que Cameron conseguiu inverter, levando a que, no terceiro quartil do ano passado, a economia britânica tivesse crescido 0,6%.
Foi também assim na Espanha de Zapatero, em que o desemprego aumentou 11,5% e a dívida pública 10,2% e, claro, foi assim no Portugal de Sócrates. E agora, cabe aos governos de Direita a ingrata, hercúlea e impopular tarefa de recuperar estas economias e restaurar a credibilidade destes Países, naturalmente, à revelia dos herdeiros dos culpados da crise que, indiferentes ao colapso que os seus predecessores causaram, hão-de continuar a clamar por gastos insustentáveis e a fazer promessas irrealistas, a fim de potenciarem o único crescimento que lhes interessa, o dos seus resultados eleitorais.